
Tudo é frio. Lá fora é frio, o chão que toca as minhas pernas é frio. A escrivaninha também já está molhada e fria, mas eu não me importo, quero continuar a ouvir a chuva cair pelo lado do fone que não funciona. As únicas coisas que me aquecem são o moletom velho e grande que era da minha mãe e as lágrimas quentes que escorrem pelo meu rosto. E eu nem sei por que escorrem. Mas não quero que parem, quero me lavar, assim como a chuva lá fora lava a calçada. A única coisa que brilha no quarto nesse momento é a Tv, ligada para o silêncio. O chão não me deixa levantar, queria poder congelar junto a ele. Assim como o meu coração, que bate congelado a muito tempo. A chama da paixão nunca chegou perto dele, e talvez nunca chegará. Mas ele ainda bate, e a cada dia me deixa mais fria, e fria, e fria. Não que eu não queira queimar e derreter esse gelo. Mas talvez, simplesmente, não deva ou não consiga. Eu sei que vai doer, me incomodar, tirar meu sono, ou seja, queimar. Queimar a cada pensamento, a cada toque ou sorriso, um fragmento do meu coração será consumido. E talvez sem volta. Ou talvez não valha a pena, e aí ficarei nua e em carne viva. As úlceras me lembrarão a todo o momento, e um gelo mais forte me cobrirá novamente. Assim espero. Enquanto isso, continuo nadando em meu mar gelado. Assim como as lágrimas que molham o chão ao redor do meu rosto. Nado a espera do toque ardente que me salvará por completo.